não gosto de falar sobre as pessoas que perdi. sobre as pessoas que já partiram. sobre as pessoas que partiram demasiado cedo, sem opção de ficar. talvez porque nunca estive preparada para perder essas pessoas. ou qualquer outra pessoa. não estou preparada para perder ninguém. nunca vou estar. embora eu saiba que as pessoas morrem, mais tarde ou mais cedo, quando alguém morre, sinto o mundo desabar. por mais que eu saiba, que a morte é inevitável, nunca estou preparada quando ela chega e leva mais uma pessoa de quem gosto. primeiro, o meu avô paterno. tinha sete anos. não tinha bem noção das coisas. não sabia bem o que significava "ir para o céu", não sabia o que significava morrer. só à medida em que o tempo foi passando, é que me fui apercebendo do que realmente significava alguém partir. só quando os momentos importantes - o natal, o ano novo, o meu aniversário ou o aniversário de mais alguém da minha família - chegavam, é que me apercebia de que as pessoas que tinham partido não estavam lá. nunca mais estiveram lá, presentes. foi aí que realmente comecei a entender o verdadeiro significado da coisa. depois do meu avô, a minha avó materna. tinha treze anos. foi no dia de carnaval. se já não gostava desse dia, quando me deparei com a morte da minha avó, passei a odiar o carnaval ainda mais. julguem-me. nunca mais foi a mesma coisa. a minha avó era a minha segunda mãe. apesar de todas as discussões, apesar de tudo. ela nunca me deixou, nunca me abandonou, esteve sempre aqui para mim. infelizmente só dei valor quando percebi que nunca mais a ia ver, quando percebi que a tinha perdido para sempre. em 2012, o meu primo. o meu primo. ninguém estava à espera. não foi doença. quando é doença, mesmo que tenhamos alguma esperança de que a pessoa vai ficar bem, ao mesmo tempo, temos consciência de que mais tarde ou mais cedo, o pior pode acontecer. quando é algo inesperado, dá cabo de ti. mata-te por dentro. destrói-te. pelo menos foi o que aconteceu comigo. matou-me por dentro, deu cabo de mim, destruiu-me. embora hoje em dia já me sinta melhor, o tempo nunca apaga. o tempo não cura nada. é uma ilusão. o tempo ajuda a que se torne um pouco mais fácil aguentar, mas não cura absolutamente nada. tu nunca esqueces. não importa o que faças. é impossível. não passa um dia, em que não pense nos meus avós e no meu primo. sinto a falta deles. gostava que eles estivessem aqui.
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